terça-feira, 10 de setembro de 2013

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Você não sabe como é o Fim. Mas ele vem, ele sempre vem. De uma maneira ou de outra, numa quarta-feira quente, deitado em uma cama estranha, ele vem.
Você pode resistir, se justificar, você pode ser sempre legal, amável, alegre, pode negar as mágoas, os defeitos, esconder os sentimentos, os não-sentimentos, maquiá-los, enterrá-los em concreto, você pode inventar novos programas, frases, piadas, pode até cortar o cabelo de um jeito diferente e comprar roupas novas. Você pode se esforçar ao máximo, que ainda sim, ele virá.
Inevitável,  imprevisível, cruel e absoluto. O Fim.
É normal que você demore em percebê-lo. Às vezes, ele é bastante escandaloso, chega gritando apressado que sim, ele está lá, e é, é isso mesmo. Mas na maioria esmagadora dos casos, ele é discreto e sutil. Você não vai saber por onde ele entrou, nem quando, exatamente. No entanto, vai ficar cada vez mais nítida a sua presença. Presença essa que te trará uma sensação peculiar de estar em um lugar que precisa ser urgentemente abastecido com mais oxigênio. Você vai, incontáveis vezes, se perguntar se ele é real, se você não está imaginando coisas, se você não está sendo injusto, bobo ou precipitado.
E ele, ainda sim, vai estar lá.
E quando isso acontecer, há duas possibilidades:

Você pode ignorá-lo, conviver com ele, fingindo que não, que nada acabou, e que está tudo absolutamente em seu devido lugar. Ao fazer isso, você poupará o grande esforço de convidar o Fim para tomar um café e ter um papo sério com ele. Essa opção é  ótima para evitar que as pessoas fiquem lhe perguntando o que diabos o Fim está fazendo ali, como foi parar lá, quem o convidou e o que exatamente aconteceu. Vai prevenir abraços tristes e constrangedores. Você não vai precisar alterar informações em redes sociais, deletar fotos. Não haverá necessidade de readaptação, de mudanças de qualquer natureza. Não existirá a data fatídica e não cairá uma sequer lágrima pública.
No entanto, é bom que você esteja avisado de que sentirá, com freqüência, sensações muito ruins e pesadas. Elas vão te deixar pra baixo, desanimado e sem vida. Mas apenas você vai saber disso. Você vai rir de coisas das quais não achou graça alguma, vai dançar músicas que detesta, vai comer em lugares desagradáveis e vai calmamente suportar o toque que você já não deseja mais. Isso, obviamente, vai acontecer porque o fim alojado em sem estômago vai estar, ora bolas, alojado em seu estômago de qualquer maneira. Seja essa a sua vontade ou não.
É como ter um cisco no olho. Um cisco bem grande.

A segunda opção é aceitá-lo. Encará-lo, olho no olho. Pegá-lo no colo e entender sua existência, suas conseqüências e seus motivos. Você vai recebê-lo, e isso não vai ser fácil. Primeiro porque aquela tal conversa séria no café vai ter que acontecer. E todo mundo sabe que conversas sérias, quando são sérias de verdade, são extremamente difíceis e exaustivas. Você vai ter que explicar o Fim, descrevê-lo, exemplificá-lo, mostrar suas vísceras e entregá-lo, calmamente, rezando para que ele não destroce a outra pessoa, arrancando-a de vez da sua vida.
Você vai ter que conviver com o fato do Fim, se readaptar ao novo cotidiano que ele irá lhe impor. Vai ter que perder certos costumes e agregar uns outros tantos, há muito perdidos. Além disso, como as pessoas costumam ser irritantes e chatas, você vai ter que conviver com a aprovação exagerada de uns e com a desaprovação indignada de outros. Isso vai vir de todos os lados, acredite.
Essa opção vai te deixar triste e inseguro, no inicio. Mas logo você vai se dar conta de que as coisas não estão mais tão ruins assim. Com o tempo, o Fim vai se diluir em outras pessoas, lugares e experiências. Você vai se sentir em paz por ter agido em equilíbrio com você mesmo e com o universo. Como quem finalmente consegue tirar um cisco do olho. Um cisco bem grande. Um daqueles ciscos que, quando saem, fazem você piscar várias vezes, lacrimejar, e reajustar a visão. Para depois sorrir, aliviado, e seguir enxergando bem melhor.




"O Fim é o de menos."

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Oi, eu planto amoras.