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Bem, eu fui iniciada no universo da ciência desde muito
pequena, graças ao espetacular hábito dos meus pais de comprar livros, que
eram, em sua grande maioria, maravilhosamente educativos.
Por algum motivo, eu acabei demostrando mais interesse pelos
livros com animais e plantas (em oposição à minha irmã, que hoje trilha pelas
obscuridades da física e da matemática, ugh), e esse interesse se estendeu
tímido durante toda a infância e início da pré-adolescência. Até que um dia,
algo muito curioso aconteceu. Um tipo de insight
que despertou em mim um sentimento muito forte e uma certeza para vida
toda.
Eu tinha uns 11 anos e estava deitada em um colchão no chão,
sem sono. A porta do quarto estava entreaberta e por ela entrava um feixe de
luz que vinha do corredor e deixava o quarto vagamente iluminado. Havia uma
formiga perambulando pelo meu campo de visão, bem perto do colchão. Naquela
idade eu tinha uma séria preocupação com a eventualidade de insetos entrarem no
meu ouvido e, por precaução, esmaguei a formiga com o dedo indicador, deixando o
seu cadáver ali mesmo, no chão. Alguns minutos depois, um grupo de 3 ou 4
formigas maiores (provavelmente de outra espécie) se aproximaram da defunta e
começaram a carregá-la em direção a porta. Eu fiquei observado, muito curiosa,
mas ainda deitada, o esforço e o trabalho em equipe envolvido na coisa toda.
Quando elas estavam bem perto da saída, uma aranha surgiu da parede e
simplesmente atacou a procissão. Com movimentos muito rápidos e ferozes, ela
roubou o corpinho sem vida da primeira formiga e de quebra ainda assassinou e tomou
posse de uma das grandes. Eu fiquei em
choque. Prendi a respiração por um segundo enquanto torcia pelas sobreviventes
que já estava à toda velocidade em direção à porta.
A oportunista aranha segurou seu jantar entre as quelíceras
e foi subindo muito satisfeita pela parede. Não estava nem na metade do caminho
quando apareceu uma temível lagartixa que a engoliu em um só golpe mortal e
desapareceu na escuridão janela afora.
Vejam bem, eu estava deitada, na madrugada, cuidando da
minha vida, quando um filme de aproximadamente 30 minutos me foi apresentado e
todo um universo minúsculo e altamente agitado foi inescrupulosamente atirado
na minha cara.
Naquele instante, eu estabeleci a certeza que guiaria a
maioria dos meus passos até o momento presente: A vida é uma coisa muito linda,
muito complexa e muito maluca.
E foi assim que eu decidi estudar biologia.
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