sábado, 12 de janeiro de 2013

Historinha - Parte 1


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Eram sete horas.  Sete horas de um dia lento e desbotado. Um dia de jeans velho. Ela estava sentada no banco, esperando.
Há exatamente 8 dias, 1 hora e 15 minutos, um senhor havia se sentado nesse mesmo banco, quando seu telefone tocou e ele recebeu a triste notícia de que seu carro ficaria mais uma semana na oficina. Pouco tempo depois da tal ligação, o senhor teve um acesso inacreditavelmente longo de vômito devido a uns camarões estragados que tinha acabado de comer, duas esquinas atrás.
Foi traumatizante para o banco, aquela tristeza e aquele vômito. Mas ninguém ligava muito para os sentimentos do banco. Continuavam sentando nele, sem dó, sem nunca dar-lhe um tempo para ficar sozinho e refletir sobre a razão de sua existência.
Além disso, o banco não era muito de reclamar.
Talvez por isso, o banco não reclamou quando ela se sentou lá. E lá ela ainda estava. Sentada, esperando.
A rua onde os dois estavam -ela e o banco- era estreita. Era também mal iluminada. E, talvez por tudo isso, também era deserta.
A mulher era clara. Não na pele, mas na pessoa. Uma pessoa clara, simples...quase óbvia. Tinha a expressão de quem sabia exatamente pelo que estava esperando.
Tinha um cabelo longo, muito escuro, e um rosto oval com maçãs bem definidas. Carregava ombros pequenos e o corpo parecia magro demais para a altura. E a pele, ao contrário da pessoa, era morena. Morena latina. A boca era avermelhada, talvez pelo batom, talvez pela mania de morder o próprio lábio que ela desenvolvera aos 12 anos. Os grandes olhos castanhos estavam fixos na vitrine da pequena loja logo em frente.
Haviam se passado quase dez minutos quando a chuva chegou. Ela fez uma cara de desaprovação já que, obviamente, não era pela chuva que estava esperando.
Ponderou se esperaria ali ou iria buscar abrigo na pequena loja em frente. A chuva era lenta e desbotada, como todo o resto, mas não lhe agradava a ideia de ficar ali, sentada, tomando um banho de ácido carbônico, tomando um chá de gripe.
Com um suspiro enfunado, foi até a loja.
Foi, e deixou o banco. Afinal, ninguém ligaria se ele, o banco,  ficasse gripado.


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Trem das três.



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Eu sabia. Eu sempre soube. O trem passava sempre no mesmo horário, as três e vinte e sete.
Ele esteve sempre lá, sempre esteve. Ele ficava sentado no banco de madeira escura, olhando para o relógio e fingindo ler um jornal do ano passado.
Eu passava por ali e estava frio, era novembro e estava frio demais pra ser novembro.
Mas eu passava. Com meu chapéu-anos-vinte cor de areia, segurando um café expresso.
Eu passava e olhava. Olhava mas quase nunca via. Eu quase nunca via que aqueles olhos eu já conhecia muito bem.
Ele vinha, ficava por alguma horas. Vinha e ficava. Depois ia embora. Como se nada tivesse acontecido, ele ia embora, de trem.
E tudo o que me restava era o jornal deixado no banco de madeira escura.
Eu podia ver a luz refletida pelos seus óculos de grau enquanto o trem se afastava devagar.
Primeiro devagar, depois muito rápido.
A fumaça e o barulho sumiam.
E ele ia, mais uma vez.
E eu não sabia por que aquilo me deixava tão triste.
Não...
Eu sabia. Eu sempre soube.

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-Olá, está ocupado?
-Estou, sinto muito.
-Muito ocupado?
-O que você acha?
-Imagino... Mas veja, preciso de ajuda.
-Não posso ajudar. Não posso fazer nada, pois estou muito ocupado fazendo todo o resto.
-Você não entende...é importante.
-Eu sei que é. Mas sinto muito.
-Você não entende...
-Escute, não tenho tempo pra isso.
-Mas se não você não fizer nada, as coisas vão dar errado. Simplesmente vão dar muito errado.
-Escute, adeus. Eu sinto muito. Não tenho tempo. Preciso ir. Esqueça. Desista de mim. Faça as coisas por conta própria.
-Tudo bem, mas eu avisei.

(Diálogo entre um coração e um cérebro. )

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Oi, eu planto amoras.