sábado, 24 de agosto de 2013

Historinha - parte 2.


A loja se chamava Dolmen.
Ela parou por um minuto e se perguntou por que alguém colocaria um nome tão estranho e inobjetivo numa loja. O que se espera comprar numa loja chamada Dolmen?
Depois, parou por mais um minuto pra se perguntar se a palavra ‘inobjetivo’ existia.
Concluiu corretamente que não.
Empurrou a porta da frente com mais força do que o necessário. Apesar de velha, a porta não fez barulho. Ela riu mentalmente com isso. Mas apenas mentalmente.
Ao entrar, passeou por entre as estantes de madeira. Eram três no meio da loja e outras duas encostadas nas paredes laterais.
Era uma loja pequena, antiga, meio desorganizada até. Não havia divisão aparente dos produtos. Estavam todos misturados, distribuídos sem critério algum pelas prateleiras.
Era colorida. Cores por toda a parte. Haviam tecidos, almofadas, móbiles, filtros de sonho, incensos, pequenas estátuas de fadas, duendes, bruxas, deuses celtas, muitos potes com ervas estranhas e mais mil e um artigos exotéricos.
Bobagens. Foi o que ela pensou.
Entretanto, uma das estantes, a que ficava encostada na parede direita da loja, era exclusiva para livros. Ela passou os olhos rapidamente pelos títulos. Percebeu que alguns deles vinham escritos em uma língua diferente, cujos símbolos nada pareciam com o alfabeto ocidental.
Não se interessou por nenhum deles.
Ia voltando para a porta da loja para conferir se ele, o esperado, já havia chegado. No curto percurso entre a estante de livros e a porta, ela foi interrompida por uma voz que era, no mínimo, assustadora.
Uma senhora, que ela julgou ser muitíssimo velha, parou na sua frente e soltou um prático “O que você quer?”
Ela percebeu que a senhora tentou ser o mais gentil possível, mas sua voz rouca não ajudava muito. Nem sua voz, nem sua aparência.
A senhora era baixa, gorda, tinha cabelos muito brancos e longos, presos numa trança mal feita. Usava uma saia que só servia para se arrastar no chão e uma blusa igualmente larga, de estampa abstrata. Usava também óculos muito redondos e pequenos. Tinha um rosto rechonchudo, todo talhado em rugas. Se a senhora ficasse muito parada, se confundiria com uma das estátuas da loja, pensou.

Nano.

º'

Era uma vez uma menina pequena. Tinha um nariz pequeno, espremido entre dois pequenos olhos que brilhavam mais ou menos com o brilho de estrelas pequenas e distantes. Um queixo pequeno, sob bochechas pequenamente desenhadas, e uma minúscula testa, peculiarmente redonda demais, coberta por uma franja curta, reta e negra. Tinha a voz pequena e discreta, uma voz mal treinada devido ao hábito de quase nunca ir lá fora.

Havia nascido pequena. O que, na verdade, era bem estranho, uma vez que seus pais e irmãos eram tudo, menos pequenos.
Mas esse não era o problema.

Todos a chamavam de Nano. E esse não era o nome dela.
Esse também não era o problema.

Nano tinha 9 anos; 1,20 de altura; 19kg e 3 amigos.
Seus amigos eram: uma pedrinha, um molho de chaves e a miniatura de um elefante azul.
Esse, sim, o problema.

Já não gostavam do fato de ela ser pequena, só que até lidavam bem com isso, na verdade. Mas brincar com pedrinha, chave, miniatura? Isso era inadmissível. Quer dizer, tudo bem uma coisa ou outra, pequena ou maluquinha, mas os dois ao mesmo tempo? Ah Nano.

Todos tinham algo a dizer sobre ela. As crianças, inocentemente cruéis como são, diziam que ela ou era pobre, ou doente.
Já os adultos, sábios e experientes como são, diziam que ela ou era pobre, ou doente.

A diferença crucial residia no fato de que as crianças acreditavam que seria realmente uma boa ideia dizer à própria Nano o que elas achavam sobre tudo isso. E os adultos se esforçavam o máximo que podiam para provar que a culpa era ou dos pais, ou do governo, ou de deus.

Bem, é obvio que tanto crianças como adultos estavam absolutamente por fora. Eles não sabia de nada. Nem de Nano.

Nano era uma pessoa ao avesso.
E da imensidão de seu interior, ela achava realmente muita graça das crianças que brincavam com bonecas e carros.
Uma vez que uma boneca é sempre uma boneca, e um carro é sempre um carro - e não se brinca com uma boneca ou com um carro de nenhuma outra forma se não da forma certa de se brincar com bonecas e carros- ora, você tem então uma quantidade de brinquedos absurdamente limitada.

Nano ria: “Que besteira”.

E o universo em seu interior chacoalhava enquanto ela escolhia a próxima aventura do dia.


.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Historinha - Parte 1


_'

Eram sete horas.  Sete horas de um dia lento e desbotado. Um dia de jeans velho. Ela estava sentada no banco, esperando.
Há exatamente 8 dias, 1 hora e 15 minutos, um senhor havia se sentado nesse mesmo banco, quando seu telefone tocou e ele recebeu a triste notícia de que seu carro ficaria mais uma semana na oficina. Pouco tempo depois da tal ligação, o senhor teve um acesso inacreditavelmente longo de vômito devido a uns camarões estragados que tinha acabado de comer, duas esquinas atrás.
Foi traumatizante para o banco, aquela tristeza e aquele vômito. Mas ninguém ligava muito para os sentimentos do banco. Continuavam sentando nele, sem dó, sem nunca dar-lhe um tempo para ficar sozinho e refletir sobre a razão de sua existência.
Além disso, o banco não era muito de reclamar.
Talvez por isso, o banco não reclamou quando ela se sentou lá. E lá ela ainda estava. Sentada, esperando.
A rua onde os dois estavam -ela e o banco- era estreita. Era também mal iluminada. E, talvez por tudo isso, também era deserta.
A mulher era clara. Não na pele, mas na pessoa. Uma pessoa clara, simples...quase óbvia. Tinha a expressão de quem sabia exatamente pelo que estava esperando.
Tinha um cabelo longo, muito escuro, e um rosto oval com maçãs bem definidas. Carregava ombros pequenos e o corpo parecia magro demais para a altura. E a pele, ao contrário da pessoa, era morena. Morena latina. A boca era avermelhada, talvez pelo batom, talvez pela mania de morder o próprio lábio que ela desenvolvera aos 12 anos. Os grandes olhos castanhos estavam fixos na vitrine da pequena loja logo em frente.
Haviam se passado quase dez minutos quando a chuva chegou. Ela fez uma cara de desaprovação já que, obviamente, não era pela chuva que estava esperando.
Ponderou se esperaria ali ou iria buscar abrigo na pequena loja em frente. A chuva era lenta e desbotada, como todo o resto, mas não lhe agradava a ideia de ficar ali, sentada, tomando um banho de ácido carbônico, tomando um chá de gripe.
Com um suspiro enfunado, foi até a loja.
Foi, e deixou o banco. Afinal, ninguém ligaria se ele, o banco,  ficasse gripado.


'

Trem das três.



'_

Eu sabia. Eu sempre soube. O trem passava sempre no mesmo horário, as três e vinte e sete.
Ele esteve sempre lá, sempre esteve. Ele ficava sentado no banco de madeira escura, olhando para o relógio e fingindo ler um jornal do ano passado.
Eu passava por ali e estava frio, era novembro e estava frio demais pra ser novembro.
Mas eu passava. Com meu chapéu-anos-vinte cor de areia, segurando um café expresso.
Eu passava e olhava. Olhava mas quase nunca via. Eu quase nunca via que aqueles olhos eu já conhecia muito bem.
Ele vinha, ficava por alguma horas. Vinha e ficava. Depois ia embora. Como se nada tivesse acontecido, ele ia embora, de trem.
E tudo o que me restava era o jornal deixado no banco de madeira escura.
Eu podia ver a luz refletida pelos seus óculos de grau enquanto o trem se afastava devagar.
Primeiro devagar, depois muito rápido.
A fumaça e o barulho sumiam.
E ele ia, mais uma vez.
E eu não sabia por que aquilo me deixava tão triste.
Não...
Eu sabia. Eu sempre soube.

º'

'-'


'

-Olá, está ocupado?
-Estou, sinto muito.
-Muito ocupado?
-O que você acha?
-Imagino... Mas veja, preciso de ajuda.
-Não posso ajudar. Não posso fazer nada, pois estou muito ocupado fazendo todo o resto.
-Você não entende...é importante.
-Eu sei que é. Mas sinto muito.
-Você não entende...
-Escute, não tenho tempo pra isso.
-Mas se não você não fizer nada, as coisas vão dar errado. Simplesmente vão dar muito errado.
-Escute, adeus. Eu sinto muito. Não tenho tempo. Preciso ir. Esqueça. Desista de mim. Faça as coisas por conta própria.
-Tudo bem, mas eu avisei.

(Diálogo entre um coração e um cérebro. )

-'

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Versinho.




Deixa eu ser brega um pouquinho?
Deixa eu te fazer um versinho?
Deixa eu falar que te amo,
Que te adoro,
Que não vivo sem você?
Que o dia fica claro
E a noite fica quente,
Que o jiló fica doce
E que o café fica também?
Deixa eu falar bem alto
Que eu acho você lindo,
Que eu gosto do seu cabelo
E do cheiro do seu pescoço?
Deixa eu ser chatinha
E assistir você dormindo,
Te beijar no meio da festa
E te elogiar pra minha mãe?
Deixa eu fazer graça
Da sua raiva forçada,
Da tentativa frustrada
De jogar a culpa em mim?
Deixa eu chamar “Meu Amor”
Quando alguém estiver olhando,
Deixa eu fazer brigadeiro
E sujar o seu nariz?
Deixa eu te dar carinho?
Bem bobo e bem bonitinho?
Deixa eu ser brega um pouquinho?
Posso fazer um versinho?
Ué, não pode?
Okay, tudo bem.

º'

segunda-feira, 19 de março de 2012

Dois fatos.

º'

Você me irrita com tua improbabilidade
Sua falta de rima, Sua carnalidade.
Me enlouquece tua piada constante.
A sua falta de tempo. Seu olhar de relance.

Você é longe, barulhento e machuca.
Você é palhaço, surdo, infantil.
Você me dobra, me pisa e risada.
Você trata, destrata e dormiu.

São as horas de espera acordada
São as tardes de raivas eternas
Que me fazem te amar tanto assim.

Se você fosse menos problema,
Mais jantar, mais flor, mais cinema,
Eu sei lá o que seria de mim.

º'

Oi, eu planto amoras.